CARTA DA PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE PROFESSORES DE GEOGRAFIA

Aos Professores de Geografia

22 de julho de 2026

Caras Professoras e caros Professores de Geografia,

Escrevo-vos num momento que nos pede duas atitudes inseparáveis: reconhecimento e responsabilidade.

Os resultados nacionais da 1.ª fase dos exames de 2026 permitem-nos confirmar, uma vez mais, a relevância da Geografia A no ensino secundário português. Permitem-nos também reconhecer o trabalho rigoroso, continuado e tantas vezes invisível que cada uma e cada um de vós desenvolve diariamente nas escolas, junto dos alunos e das comunidades educativas.

Em 2026, Geografia A registou 18 768 inscrições e 16 714 provas realizadas, mantendo-se como a sexta disciplina com maior número de inscrições e de provas em todo o sistema nacional de exames. Cerca de uma em cada dezoito inscrições nos exames nacionais correspondeu a Geografia A.

Este resultado tem um significado especial. A Geografia A não integra a formação geral comum nem é obrigatória para todos os alunos. É uma disciplina bienal de opção, disponível apenas nos cursos científico-humanísticos de Línguas e Humanidades e de Ciências Socioeconómicas. A sua expressão nacional não resulta, portanto, de uma frequência universal ou imposta pela matriz curricular. Resulta da escolha dos alunos e do reconhecimento de que a Geografia lhes oferece instrumentos fundamentais para compreenderem o mundo em que vivem.

Apesar dessa condição opcional, Geografia A registou 45,1% mais inscrições do que História A, disciplina trienal obrigatória de Línguas e Humanidades, 12,5% mais inscrições do que Matemática Aplicada às Ciências Sociais e 8,7% mais do que Economia A.

Estas comparações não pretendem estabelecer hierarquias entre saberes ou disciplinas. Pretendem, isso sim, tornar visível a dimensão alcançada pela Geografia e demonstrar que uma disciplina formalmente opcional pode assumir, na prática, uma função estruturante na formação dos jovens.

A média nacional de Geografia A foi de 107 pontos. Este valor representa uma melhoria de seis pontos face aos 101 pontos inicialmente divulgados em 2025 e uma melhoria de quatro pontos quando tomamos como referência os 103 pontos resultantes das reapreciações desse ano. Aguardamos, naturalmente, os resultados das reapreciações de 2026 para conhecermos o valor final.

Das 16 714 provas realizadas, 10 656 obtiveram classificação positiva, correspondendo a uma taxa de sucesso de 63,75%. Num universo tão expressivo de candidatos, este é um resultado que merece ser reconhecido e valorizado.

Mas os números, por si só, nunca contam toda a história.

Por detrás de cada inscrição, de cada prova e de cada classificação está um aluno com o seu percurso, as suas dificuldades, as suas expectativas e as suas escolhas. E, por detrás desse aluno, está também o trabalho de um professor: as aulas preparadas, os materiais produzidos, os mapas selecionados, os dados analisados, as dúvidas esclarecidas, as atividades de campo organizadas, os exercícios corrigidos e as horas de acompanhamento que nenhuma estatística consegue verdadeiramente medir.

O exame avalia uma parcela das aprendizagens. Não consegue representar integralmente tudo aquilo que se constrói nas aulas de Geografia.

Não mede a capacidade de um aluno observar criticamente uma paisagem, compreender as desigualdades entre territórios, interpretar uma pirâmide etária, analisar uma rede urbana ou relacionar decisões económicas com consequências ambientais e sociais. Não mede plenamente a literacia cartográfica, a consciência territorial, a responsabilidade ambiental ou a capacidade de pensar simultaneamente nas escalas local, nacional e global.

Essas aprendizagens existem porque há professores de Geografia que, todos os dias, transformam conteúdos curriculares em conhecimento vivo e significativo.

Nas salas de aula, no trabalho de campo, na utilização dos SIG e das tecnologias geoespaciais, na leitura de mapas e imagens de satélite, na análise de dados estatísticos e no debate sobre alterações climáticas, migrações, riscos, urbanização, recursos, desigualdades e coesão territorial, os professores de Geografia ajudam os jovens a compreender que nenhum fenómeno acontece isoladamente e que cada decisão deixa marcas no território.

É esse trabalho que importa hoje reconhecer.

Contudo, reconhecer o que correu bem não pode significar ignorar aquilo que não correu como deveria. O nosso orgulho na disciplina e nos seus professores não deve transformar-se em complacência perante as fragilidades que o processo revelou.

É verdade que esta 1.ª fase não correu bem. Há que parar, refletir sobre o que falhou e avançar com mais cautela e melhor preparados para a 2.ª fase. Acreditamos no sistema e queremos contribuir para credibilizar o processo — todos fazemos parte da solução!

A credibilidade dos exames nacionais constrói-se com rigor científico, clareza, transparência, equidade e capacidade de escutar os profissionais que conhecem os programas, as aprendizagens essenciais, os alunos e a realidade das escolas.

A Associação de Professores de Geografia continuará disponível para ouvir os professores, recolher os seus contributos, promover uma reflexão séria e participar num diálogo institucional construtivo. Defender a credibilidade do processo de avaliação significa também identificar fragilidades, aprender com elas e contribuir para que não se repitam.

Não procuramos alimentar polémicas nem fragilizar as instituições. Procuramos contribuir para que o sistema seja mais rigoroso, mais transparente e mais digno da confiança dos alunos, das famílias, dos professores e da sociedade.

Caras e caros colegas,

Quero terminar dirigindo-vos uma palavra simples, mas profundamente sentida: OBRIGADA.

Obrigada pela persistência perante programas extensos e matrizes curriculares desiquilibradas, turmas heterogéneas e condições nem sempre favoráveis. Obrigada pela exigência científica, pela capacidade de inovação e pela disponibilidade para acompanhar os alunos para além da preparação imediata de uma prova. Obrigada por continuarem a demonstrar que a Geografia não é apenas uma disciplina escolar: é uma forma de ler o mundo, de compreender os territórios e de agir sobre eles com responsabilidade.

Por detrás de cada jovem que aprende a ler um mapa, a interpretar uma paisagem, a questionar uma desigualdade territorial ou a compreender uma crise ambiental, está um professor de Geografia que lhe abriu uma nova janela sobre o mundo.

Talvez esse trabalho não caiba por inteiro numa pauta. Talvez não possa ser medido apenas por uma média, por uma percentagem ou por uma classificação. Mas permanece na forma como os alunos passam a observar o território, a relacionar fenómenos, a fundamentar decisões e a exercer a sua cidadania.

O vosso trabalho conta! O vosso trabalho transforma! O vosso trabalho é necessário e merece ser reconhecido!

Recebam o meu profundo reconhecimento, a minha confiança e um abraço solidário.

Continuemos juntos, mais atentos, mais exigentes e mais unidos, porque valorizar a Geografia e os seus professores é contribuir para uma escola capaz de preparar jovens que compreendam o território, interpretem criticamente o presente e participem na construção de um futuro mais sustentável, mais coeso e mais justo.

A Geografia faz falta à escola, ao território e ao futuro!

Com profunda gratidão e consideração,

Ana Cristina Câmara

Presidente da Associação de Professores de Geografia